As palavras e as coisas

iconicidade
Eu finalmente vi a peça do Gregório
Author

Mahayana Godoy

Published

August 27, 2026

Ano passado eu não estava no Brasil, e mais de um amigo me escreveu para dizer que eu precisava ver a peça do Gregório Duvivier quando eu voltasse. Pois bem, a peça voltou a Natal, e eu fui. O texto de O Céu da Língua é uma delícia, e vários trechos poderiam estar numa aula de introdução à linguística. Na verdade, alguns dos exemplos e comentários eu efetivamente uso em aula.

A recomendação para ver a peça veio de colegas que foram vítimas do experimento do meu pós-doutorado, no qual eu pedia para as pessoas julgarem se o som de uma palavra se parecia com o seu sentido numa escala que ia de 1 (não parece nada) a 7 (parece muito). A peça toca nesse ponto, com o Gregório mencionando algumas palavras que parecem mostrar com sua forma o que elas significam: chute (que, no nosso experimento, recebeu uma nota média de 5,4), tropeçar (a nota foi 4,9), bolha e borbulha (ambas com 5,6), metralhar (6,3) e, minha preferida, sussuro (6,3). Analisamos mais de 7.000 palavras do português, e nossos dados mostraram muitos outros casos desse tipo. O destaque ficou com batuque: 11 pessoas avaliaram a palavra de maneira independente, e todos disseram que essa era uma palavra de nota 7 (o que indica que falar batuque é tipo fazer um batuque).

O texto da peça ainda entra num ponto que eu e meus alunos havíamos reparado em nossos dados: a quantidade inimaginável de palavras que o brasileiro tem para falar de bagunça. Bagunça, aliás, é a palavra menos expressiva nesse campo semântico, com uma nota de 3,5 - exatamente a metade da nossa escala de 7 pontos. Muito mais parecidas com a ideia de uma bagunça são as palavras auê (nota 5,8), fuá (5,7), bafafá (6,46), vuco-vuco (6,6), muvuca (6), bololô (5,9), esbórnia (3,9), fuzuê (6,1), corre-corre (6,5), furdunço (5,7), buxixo (6,6), reboliço (4,8), oba-oba (6,3), alvoroço* (5,1), algazarra (4,5), pancadaria* (5,5), zona (4,2), baderna (5,3) e arruaça (5,1). Tem também o chilique (6,3), que o texto de O Céu da Língua define como uma bagunça de uma pessoa só, e ao qual adicionamos piripaque (6,4), siricotico (6,5) e faniquito (5,3).

Soube depois que a peça ganhou um spin off com ótimos vídeos sobre o léxico do português, como esse aqui sobre como as crianças falam (meu filho há poucas semanas falou um “deslembrei” no lugar de esqueci).

Ponto curioso que achei na pesquisa e que não vi na peça ou nos vídeos (eu procurei!) foi que boa parte do léxico extenso para pilantragem, tramoia, trambique, mutreta, truque, trapaça e falcatrua tem na palavra esse encontro consonantal /tr/. Ele aparece também em palavras que indicam movimento sem controle: tremer, trepidar, tropeçar. Não tenho ideia da causa dessa conhecidência, mas meu chute é que poderia ser um tipo de fonastema associado à ideia de falta de estabilidade.

*As notas correspondem especificamente a alvoroçar e pancada

PS: O projeto do livreto com o texto da peça é lindíssimo, e trabalha graficamente a relação entre a forma e sentido.

PPS: Agradeço aos mais de 2.500 viventes que participaram do experimento (e ao CNPq pelo financiamento). Estamos nos finalmentes para a submissão do artigo com a análise dos dados. Falo um pouco mais sobre esse tema na minha participação no Mexendo com a Língua, podcast da UFSCar.